terça-feira, 16 de abril de 2013



A louca de Copacabana

Na minha família, temos o costume de dizer que atraímos doidos — pensei enquanto andávamos, eu e Him, em direção ao ponto do açaí que sempre tomamos ao chegar no Rio de Janeiro. Cruzamos a Avenida Atlântica, meus cabelos não balançavam nem com furacão caribenho, duros de areia. Lambi meus lábios, também cobertos de areia cinzenta. Braços e barriga cimentados de sal. Eu tenho mania de levar um pouco do mar comigo. 

Chegamos à padaria da esquina, em Copacabana. 

Pede você — disse Him ao ver que o rapaz atrás do balcão esperava uma reação da nossa parte, e aí, vão pedir o quê?

Não, pede você, é bom que pratica o Português — disse a Him, que está aprendendo meu idioma e faz sopa de letras, inventa palavras que nunca existiram, ah, como Him inventa. Pede açaí com banana, please, darling

Lembrei-me, de uma hora pra outra, do rosto sem pudor da atendente loira do curso de mergulho em Cabo Frio. Ela falava fazendo biquinhos, enrugando o queixo pequeno; e quando eu dizia alguma coisa, a coisa mais banal, ela inclinava a cabecinha para a direita, concordando com tudo, sim, sim, uma coelhinha, caprichando no biquinho, como se tanta doçura a vida lhe oferecesse.

Pediu? Yes, thanks. See, they can understand you —  sim, a loira também o entenderia...

Him disse que pediu “ássai com báh-naaa-na and gra-nou-lah, pour favour”. Eu balanço a minha cabeça de lado e faço biquinho, como a loira. Isso, my love, muito bem.  A padaria é pequena e está cheia. O serviço é lento. É sexta-feira, e as noites de sextas, em qualquer canto do Rio, parecem pegar fogo. Ah, como eu gosto do Rio. O sotaque do carioca dá vontade de mastigar. Deveriam inventar uma goma de mascar Carioooca, não dá vontade? A loira faria um biquinho concordando com maciez. 

Olhei em volta, todas as mesas estavam ocupadas. Him esperava em pé ao lado do balcão. Que semblante calmo tem ele — pensei. Um rosto de ondas calmas e espumantes. Um sujeito entrou sem camisa e colocou o celular para carregar numa tomada no canto da parede — padaria é lá lugar...? Passei espremida entre uma mesa e o rapaz do celular, rocei minhas costas nas suas costas morenas e nuas. Ele também carregava o mar no corpo. Sentei no único banquinho desocupado, num canto sujo, ao lado do celular carregando e de dois japoneses comendo pastel. A noite não está pra peixe, o restaurante japonês ao lado está vazio, como bem notei ao passar, e os japoneses têm mais é que comer pastel — pensei. 

A padaria cheia... A única coisa que não saí é esse açaí! Reparei um pouco perplexa que, à mesa em frente a mim, estavam sentados uma mulher e um cachorro poodle — o cachorro sentado como gente. Não era uma mulher comum. Seus olhos verdes, cheios de exclamação e cobertos de sombra mais verde e brilhante, me encararam. Desviei o olhar, seu rosto era de uma loucura transtornada, loucura fixada numa pedra. Fingi não me interessar pela vida alheia — uma mentira tão louca quanto os olhos de pedra da senhora. Estava na cara que ela era uma grande e bela personagem — eu vivia anotando estórias e personagens de rua, sem nunca ter escrito uma página. Tinha um livro dentro de mim, tão secreto que já nem sabia onde o havia guardado. Alguma gavetinha da memória... Pensei na loira, balançando a cabeça de lado, bem devagar, em câmera lenta, como se a vida tivesse um momento slowmotion...

Se eu olhasse bem fundo aqueles olhos, pediria à mulher: “me cura”. Com esses olhos que são duas gaiolinhas iluminadas por pássaros verdes. Queria que os olhos cantassem pra mim, como os pássaros loucos que cantam no meio da noite. Em Londres, os pássaros cantam confusos em noites de invernos, em noites tão longe do Rio, do sotaque mastigado do carioca, do açaí da padaria, do corpo impregnado de sal. Fechei os olhos e creio que sacudi a cabeça, de outra forma não conseguiria afastar meus pensamentos. Olhei para a mulher, de relance. Seus olhos perdidos se alimentavam de uma energia invísivel, como um sapo que coloca a língua pra fora e agarra um inseto no ar, em segundos. 

Pode sentar aqui, se quiser — disse ela.

Eu demorei a entender que falava comigo. Oi?  

Pode sentar, minha filha, nessa cadeira aqui vazia — respondeu como se fôssemos íntimas. 

Olhei para o poodle sentado na cadeira, respondi educadamente que não, obrigada.  Ela não me ouviu. Levantou-se para pegar o suco. Deu um pequeno gole, fez um brinde a todos: Que su-co! A receita é uma maravilha, cenouuura, laranja..., que delícia, que delícia!

O garçom passou para recolher os pratos da mesa vizinha, ela o agarrou pelo braço: 

Que delícia de su-co, moço, que su-co tão bom. 

Seus olhos explodiram, dois balões num céu verde — a loucura não a deixaria ter um céu azul. Porque não. Agradeço-lhe novamente a gentileza, confessando a mim mesma que adoraria sentar ao lado dela, para agarrar qualquer trapo de loucura que ela viesse a jogar fora. Odeio o comum, quero conhecer as pessoas loucas, fora da realidade! Ai, mas e Him? Lá vinha ele com os dois açaís nas mãos. 

Não tem lugar pra sentar, voltamos à praia, sentamos num banquinho — sugeriu Him. 

Ah, a senhora aqui nos ofereceu lugardisse meio constrangida, ao lado do cachorro. Será que o cachorro falava? Postura de gente ele já tinha.  

A mulher nos encarou e deu um riso torto. — Já falei que pode sentar! — ajeitou os peitos moles dentro do top de lycra colado na pele branca e sardenta. 

Achei seu olhar de infinita esperança. Him olhou para mim assim: ... 

O garçom passou entre nós e serviu um prato de hambúrguer e batatas fritas à mulher. Os olhos dela cresceram. Que olhos tão desesperados. Eu tinha obsessão com olhos, e aqueles pareciam um órgão de alegria carnavalesca, “não se é feliz, mas é de fazer feliz”. 

Calma, Bolacha, eu vou dividir com você, seu guloso falava a mulher com o poodle.  

Admiro quem trata cachorro como gente, pensei. Fico imaginando a tentação do cachorro de tratar alguns seres humanos como bichos. 

Ai, tá bom, vamos tomar o açaí na praia, let´s go! tomei a decisão e deixamos a padaria.  

Mas se você quiser sentar com a louca, a gente senta... 

Não, deixe pra lá... Nem conheço a mulher e... Cadê a banana desse açaí? 

Look, we can seat over there.  

Sentamos. 

Bateram a porcaria da banana com o açaí — reclamei. Gosto de açaí com banana cortadinha.

Sorry.
 
Ah, não foi culpa sua...

Tomamos o açaí em silêncio. Imaginei o silêncio brilhando no mar, sim, ele podia resplandecer num mar de cor roxa. O silêncio mais lindo é o da loucura, o vento batendo nas palmeiras imitando a dor das ondas. E o canto silencioso de pássaros noturnos nas minhas manhãs cinzas. Eu luto, luto  que onda violenta me atrai ao que não quer fazer sentido? A vida me dá um caldo... e se a vida me desse um caldo grande?... 

A gente podia voltar lá na padaria e comprar um pastel. Deu uma vontade de comer pastel — sugeri.
Him me encarou, dois pontos: Pra ver a louca?        

Eu, hein?, imagina, não... Deu fome de pastel, não de loucura, dei um riso sem graça. Como as palavras soam bobas às vezes... “fome de loucura”...

Luana, aluada, se você quiser conhecer louco, sei lá, vai trabalhar numa clínica de Psiquiatria.
— Vem cá, quem revelou meu apelido, Luana aluada

— Ué, todo mundo na sua família chama você assim, não? Sua prima, pelo menos... 

Ainda me chamam assim, pelas minhas costas?!

Você tá doido

Eu, não, doida é você — responde Him com seu sotaque infantil.  

Eu faço cara de loira doce emburrada, faço biquinho. 

Enfim, nem estudo eu tenho pra isso, pra nada!, como vão me aceitar?

Você pode ser voluntária, sei lá, começar aos poucos...

Você acha? — pergunto. Sim, pra Him, tudo é possível. — Pode ser — faço biquinho pensativo e balanço minha cabeça de lado. 

Ah, está vendo, você quer conhecer doido! Você quer voltar à padaria pra ver a louca dos olhos grandes. 

Fico desconcertada. 

Olhe aqui...

Levanto meu dedo indicador, que fica para trás no ar. Atravesso a avenida sem olhar direito — sempre que atravesso uma rua, avenida, penso qual seria a cor da dor nos meus olhos ao ser atropelada? Cresceriam grandes como o da louca da padaria, gigantes, cairia eu verde no chão com a cabeça inclinada? Como seria a dor? I am so sorry..., diriam os ingleses pedindo perdão pelo que não sentem... Entendo sua dor, diria a loira, sem nada dizer, fazendo biquinho para tragédias cotidianas... Ah, quanta bobagem eu penso! 

Voltamos à padaria. Entrei com o passo agitado, Him atrás de mim. Meu Deus, que loucura para ver a louca! Olhei ao redor, meus ombros murcharam. A padaria vazia... Pedi um pastel. Mas quero um pastel oco, de vento, pensei. Um pastel de vazio, de areia, please

Quer? — perguntei. Não, Him não tem fome.
 
Sentamos à mesma mesa onde antes sentara a louca; sentei-me no lugar onde o cachorro “Bolacha” — isso lá é nome! sentava como gente. Esperamos horassssss penso num carioca dizendo “horasssssss”, o s bem puxado, esperamos ho-ras pelo pastel. Quase desisto. Os japoneses ainda comiam pastel?  

Olhei nos olhos de Him. Não, ele não era a louca dos olhos verdes. Him me olhou em silêncio, nada falamos durante a espera. Comi o pastel oleoso com pressa. Ah se eu fosse uma cachorra, pensei, sairia rastreando a loucura, sem ajuda de ninguém. Uma cachorra solta, afinando meu focinho, balançando minha cabecinha de lado, uma cachorra loira. Him não imagina o que estou pensando, nunca vai aprender a ler meus pensamentos, nem que domine 100% meu idioma. Encarei-o. Ele riu como se comesse vento. Quem come vento ri à toa e coça uma lágrima no rosto. Eu sei, por instinto.   

Como seria possuir uma alma canina? — pensei, em segredo. Cachorros vão para o céu? — perguntei um dia a minha mãe. Em vão. Cachorros como eu, voltam para Londres com o rabo entre as pernas, fugindo do Brasil. E se eu fosse uma cachorra louca? Seria uma puta cachorra. Au de mim... Him alisou meu cabelo e deu uma palmadinha na minha cabeça. Seus olhos pareciam perturbados. Him não quer ter filhos, mas cachorros... “Jez... Come devagar”, ordenou ele como se eu fosse o quê?! Deu outra palmadinha na minha cabeça. Eu tinha o faro pra certas coisas e devia tirar proveito disso. Him agora parecia bastante contente, não gostava em geral das pessoas, conservava-se. Eu já havia notado que Him tratava qualquer cão melhor do que gente. 

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